O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reafirmou a aliados próximos que não cederá à pressão do Senado Federal e manterá a decisão de indicar o advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Nos bastidores, a posição do presidente foi interpretada como um gesto de autoridade política diante das movimentações da cúpula do Senado, que nas últimas semanas enviou diversos alertas ao Planalto de que Messias não teria votos suficientes para aprovação em plenário.
“Pode ser apertado. Pode demorar. Mas será Messias”, afirmou à reportagem um interlocutor do governo com trânsito direto no gabinete presidencial.
Resistência no Senado
Segundo apuração da coluna Igor Gadelha, líderes do Senado alertaram Lula de que a sabatina de Messias poderá enfrentar forte resistência, especialmente entre senadores independentes e da oposição.
A comparação feita por aliados de Lula é com a recente votação da recondução do procurador-geral da República, Paulo Gonet, aprovada por 45 votos a 26 — o placar mais apertado desde a redemocratização.
O episódio acendeu o sinal amarelo no Palácio do Planalto, que teme um novo embate público entre o Executivo e o Senado em um momento em que Lula busca recompor pontes com o centrão e reduzir o desgaste com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
“Se o Gonet, que denunciou o Bolsonaro, foi aprovado, Messias também será”, avaliou um ministro palaciano, tentando minimizar o risco de derrota.
Bastidores da escolha
A decisão de Lula por Jorge Messias foi consolidada antes mesmo do feriado da Proclamação da República, quando o presidente, em conversas reservadas, descartou a hipótese de recuar ou “testar outros nomes” para medir a temperatura política.
O presidente considera Messias um quadro técnico, discreto e leal, que tem desempenhado papel central na defesa jurídica do governo em temas sensíveis — da anulação de multas fiscais a disputas no Tribunal de Contas da União.
Além disso, Messias é evangélico, fator considerado estratégico para o Planalto em meio à aproximação de Lula com lideranças religiosas, especialmente após a reunião recente com pastores da Assembleia de Deus de Madureira.
“Lula quer um ministro de confiança e perfil institucional, não uma indicação negociada. A escolha é pessoal”, afirmou uma fonte próxima ao presidente.
O nome preferido do Senado
Dentro da cúpula do Congresso, o nome que mais agrada aos senadores é o do próprio Rodrigo Pacheco (PSD-MG), presidente do Senado.
Lula, no entanto, prefere reservar Pacheco como possível candidato ao governo de Minas Gerais em 2026, dentro da estratégia de ampliar a base de governadores aliados ao PT no Sudeste.
A escolha de Messias, portanto, também tem dimensão política e eleitoral: reforça o núcleo jurídico do governo e preserva o mineiro para o projeto eleitoral de médio prazo.
Apoio entre evangélicos
Aliados de Messias afirmam que ele deve ter desempenho melhor que Gonet na votação, justamente por contar com apoio da bancada evangélica — grupo de influência crescente no Senado.
“Ele é um homem de fé, tem bom trânsito entre pastores e não enfrenta rejeição moral ou ideológica”, disse um senador do PSD que deve votar a favor da indicação.
Entre parlamentares próximos ao Planalto, há confiança de que a sabatina na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) — presidida por Davi Alcolumbre — será dura, mas não hostil.
A expectativa é que o Planalto consiga entre 50 e 55 votos no plenário, número considerado suficiente para garantir a aprovação.
Um teste de força política
A manutenção de Jorge Messias como indicado é vista como um teste direto de poder entre o Executivo e o Senado, num momento em que Lula enfrenta críticas por concentrar decisões estratégicas em seu círculo mais próximo.
Se aprovada, a nomeação consolidará a terceira indicação de Lula ao STF desde o início do mandato, após Cristiano Zanin e Flávio Dino, ampliando a influência do presidente sobre o tribunal.
“Lula está disposto a bancar a escolha até o fim. A eventual derrota seria política, mas a desistência seria simbólica demais”, afirmou um assessor do Planalto.
A insistência de Lula em Messias tem duplo significado político:
- Representa uma aposta na fidelidade institucional do atual advogado-geral da União, visto como “soldado jurídico” do governo;
- E reafirma a autoridade presidencial em um contexto de tensionamento entre os poderes.
No entanto, o movimento também coloca o Planalto em rota de colisão com o Senado, especialmente se o placar for apertado, o que pode gerar desgaste na relação com o centrão e com Pacheco — cuja interlocução será fundamental para a pauta econômica de 2026.
“Lula prefere um desgaste agora do que um ministro sem lealdade depois”, resume um ministro petista.



