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Lula e Trump reabrem diálogo, mas governo brasileiro mantém cautela: “É só o primeiro passo”

Telefonema de 30 minutos entre os presidentes reaquece a diplomacia entre Brasília e Washington, mas Planalto evita euforia e trata aproximação como gesto simbólico após meses de tensão política e comercial.
Foto: Reprodução

O telefonema entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, nesta segunda-feira (6), foi recebido com alívio — mas também com pé no freio — por diplomatas e ministros do governo brasileiro.

Embora o gesto seja considerado positivo, fontes do Itamaraty e do Palácio do Planalto ouvidas pela CNN Brasil avaliam que a ligação marca apenas o início de um processo longo e delicado de reconstrução das relações entre Brasil e Estados Unidos.

“É um primeiro passo, não uma vitória. O momento exige calma, prudência e discrição”, resumiu um assessor direto de Lula envolvido nas conversas.

 De Nova York a Washington: bastidores da reaproximação

A retomada do diálogo teve início discretamente na Assembleia Geral da ONU, em 23 de setembro, quando Lula e Trump se cumprimentaram nos bastidores e tiveram uma breve conversa que abriu caminho para o telefonema desta segunda-feira.

Desde então, as trocas diplomáticas se intensificaram nos bastidores, com participação direta da embaixada brasileira em Washington e do Departamento de Estado americano.

Segundo interlocutores do Planalto, Lula tem insistido na via da diplomacia pessoal, acreditando que a relação direta com Trump pode ser mais produtiva do que o canal formal.

“A boa química entre os dois líderes, destacada publicamente por Trump, foi o gatilho para destravar as conversas”, disse uma fonte do Itamaraty.

Marco Rubio no tabuleiro

A nomeação do senador Marco Rubio como interlocutor dos EUA para as tratativas com o Brasil foi recebida com reserva e pragmatismo. Rubio, conhecido por posições duras contra o país durante a gestão Bolsonaro, agora surge como ponte diplomática de um governo republicano que tenta reorganizar sua política externa.

Diplomatas brasileiros afirmam que Rubio “atuará com profissionalismo”, mas ainda há desconfiança sobre o quanto ele pode influenciar decisões comerciais, como a sobretaxa de 40% sobre produtos brasileiros e as sanções aplicadas a autoridades, incluindo o ministro Alexandre de Moraes, do STF.

O peso político do telefonema

A conversa de 30 minutos entre Lula e Trump teve tom “cordial e construtivo”, segundo relatos de ambos os lados. Lula disse ter visto no contato “uma oportunidade de restaurar 201 anos de relações amistosas entre as duas maiores democracias do Ocidente”.

Trump, por sua vez, escreveu na Truth Social que “teve uma ótima conversa com Lula”, confirmando planos de novos encontros e até uma possível visita mútua entre os dois países “em um futuro não tão distante”.

“Nós tivemos uma ótima conversa e vamos começar a fazer negócios”, declarou o presidente americano à imprensa na Casa Branca.

 Leitura diplomática

No governo brasileiro, o episódio é visto como um gesto de distensão após meses de atrito, mas ainda sem ganhos concretos. A diplomacia de Lula aposta que o diálogo direto com Trump pode abrir portas comerciais, especialmente no agronegócio e na pauta de energia limpa — mas evita projetar resultados imediatos.

“Depois de tantas hostilidades, o simples fato de Trump ter ligado já é significativo, mas isso não apaga os desafios estruturais da relação”, avaliou um diplomata ouvido reservadamente.

Além disso, há um componente político doméstico: o telefonema isola Jair Bolsonaro, que não foi incluído nas conversas e perdeu espaço como figura de referência para o trumpismo brasileiro. A direita, embora tente minimizar, admite o revés simbólico.

Cenário político: aproximação com cautela

A conversa ocorre num momento em que o governo Lula busca reconstruir pontes internacionais após o impacto das tensões com o mercado americano. O Planalto vê vantagem estratégica em restabelecer diálogo com Washington, especialmente após o tarifário de Trump e a pressão sobre exportações brasileiras.

Mas o Itamaraty é categórico: o caminho será lento e técnico, longe do improviso. “O mais importante agora é consolidar o respeito mútuo, não a manchete do dia seguinte”, disse um diplomata.

Em resumo, o telefonema entre Lula e Trump foi mais um gesto de descongelamento do que uma aliança política — um aceno que devolve civilidade à relação, mas ainda está distante de uma reaproximação estrutural.

Como sintetizou um interlocutor do governo:

“Lula ligou o telefone certo. Agora falta transformar o tom cordial em política de Estado.”

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