A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS teve um dos dias mais tensos desde sua criação. Após intensas discussões, trocas de acusações e tentativas de obstrução, o colegiado rejeitou o requerimento para convocar José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados (Sindnapi).
A decisão, articulada pela base governista, foi tratada como uma vitória estratégica do Planalto, que vinha de derrotas recentes no Congresso — entre elas, a queda da MP do IOF e o desgaste em torno da “PEC da Blindagem”.
“O governo precisava mostrar força e alinhamento, e conseguiu. Foi um recado direto de que a base ainda tem poder para conter a oposição”, avaliou um senador próximo à liderança do PT.
A CPMI e o fio político da crise
A CPMI, criada para investigar as fraudes bilionárias no sistema previdenciário, se transformou em um campo de batalha política desde o início.
O escândalo, revelado pelo Metrópoles, mostrou que sindicatos e associações de aposentados teriam usado descontos automáticos nas aposentadorias para desviar mais de R$ 2 bilhões, envolvendo intermediários, lobistas e dirigentes sindicais.
As denúncias levaram à Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, deflagrada em abril deste ano, e culminaram na queda do então ministro da Previdência, Carlos Lupi (PDT).
Mesmo assim, nesta quinta-feira, a base governista blindou figuras próximas ao Planalto, rejeitando também pedidos de quebra de sigilo bancário e fiscal de Lupi e o pedido de prisão preventiva de Milton Cavalo, presidente do Sindnapi.
“A oposição tentou transformar a CPMI em palanque eleitoral. O governo respondeu com pragmatismo: segurou as pontas e evitou que o caso contaminasse Lula diretamente”, disse um assessor do Ministério da Casa Civil.
O alvo e os bastidores
Nos bastidores, a tentativa de convocar Frei Chico era vista como uma ofensiva direta ao presidente Lula.
A oposição apostava em um depoimento que pudesse desgastar o governo e criar o “efeito Collor”, ligando o escândalo do INSS ao núcleo político do Planalto.
Mas a estratégia naufragou. Deputados aliados conseguiram neutralizar os requerimentos mais explosivos e aprovar apenas a quebra de sigilo do advogado Eli Cohen, um dos responsáveis por denunciar as irregularidades.
Por outro lado, o colegiado rejeitou investigar a publicitária Danielle Fonteles, que teria recebido pagamentos de Antonio Carlos Camilo, o “Careca do INSS”, personagem central nas investigações.
As próximas peças do tabuleiro
A CPMI deve seguir ouvindo depoimentos de assessores e dirigentes de entidades ligadas ao setor, como Cícero Marcelino de Souza Santos, da Conafer — apontado pela PF como possível operador das fraudes.
Mas o clima político, segundo integrantes da comissão, já mudou: o Planalto recuperou o controle da pauta.
Enquanto isso, a oposição se reorganiza e tenta reagir com novas frentes de ataque — especialmente após a blindagem de Frei Chico e Lupi.
“Essa CPMI começou como uma investigação de fraudes e terminou como um teste de força política”, resume um parlamentar do MDB. “O governo venceu hoje, mas o custo de blindar aliados pode ser cobrado adiante.”








