O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu a quebra dos sigilos bancário e fiscal da empresária Roberta Luchsinger, investigada no âmbito da CPMI do INSS. A decisão atendeu parcialmente a pedido liminar da defesa, que alegou constrangimento ilegal após a aprovação da medida pela comissão no último dia 26 de fevereiro.
Roberta é apontada como amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-PE). Na mesma sessão em que foi aprovada a quebra de sigilo da empresária, a CPMI também aprovou a quebra dos dados de Lulinha, o que provocou confusão no plenário e pedidos de anulação por parte da base governista — posteriormente rejeitados pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
STF aponta violação ao devido processo na votação “em globo”
Ao fundamentar a decisão, Dino destacou que a aprovação conjunta de 87 requerimentos — a chamada votação “em globo” — violou o devido processo constitucional. Segundo o ministro, embora CPIs possuam poderes equiparados aos de autoridades judiciais, elas estão obrigadas a fundamentar individualmente cada medida invasiva.
Para o relator, afastamentos de sigilo bancário e fiscal não podem ocorrer de forma coletiva, sem análise detalhada e justificativa específica para cada caso. O magistrado alertou para o risco de investigações se transformarem em “fishing expedition” — expressão usada para caracterizar buscas genéricas por provas, sem delimitação clara de objeto.
Sigilo preservado até julgamento definitivo
Dino determinou que, caso os dados já tenham sido enviados à comissão, as informações permaneçam sob guarda sigilosa da Presidência do Senado até o julgamento do mérito da ação. A decisão, contudo, não suspende automaticamente outros pedidos de quebra de sigilo aprovados pela CPMI, incluindo o de Lulinha.
O foco da liminar está na forma de deliberação da comissão, não no mérito das investigações conduzidas pela Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal para apurar descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas.
Embate entre fiscalização parlamentar e garantias individuais
A decisão reforça o debate sobre os limites das CPIs e o papel do Judiciário na proteção de direitos fundamentais. Parlamentares da oposição já haviam questionado a votação em bloco, argumentando que cada requerimento deveria ser debatido individualmente para permitir à sociedade compreender a fundamentação de cada medida.
Dino concordou com esse entendimento ao afirmar que a política tem regras próprias, mas que estas não podem se sobrepor à Constituição. Segundo ele, medidas que afastam garantias individuais exigem motivação clara e específica.
O episódio amplia a tensão institucional entre Congresso e Supremo, especialmente em um contexto no qual a CPMI do INSS se tornou palco de disputas políticas de alta sensibilidade.



