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A direita que ajuda Lula por cometer tantos erros estratégicos

Não é razoável esperar que analistas ou colunistas assumam o papel de conselheiros de políticos profissionais, especialmente daqueles que acumulam décadas de mandato, estrutura partidária e forte capital eleitoral. A função do jornalismo de opinião não é ensinar política a quem vive dela, mas analisar fatos, interpretar movimentos e apontar consequências.

Sob esse prisma, chama atenção a sucessão de erros estratégicos cometidos por lideranças expressivas do campo conservador brasileiro. Governadores como Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, todos com peso eleitoral real e potencial nacional, têm atuado de forma errática, frequentemente guiados por impulsos de redes sociais e estratégias de curto prazo focadas em engajamento, não em construção política.

Lideranças grandes, atuação pequena

O cenário recente tem sido marcado por episódios de improviso, falas mal calculadas e posicionamentos que mais atrapalham do que ajudam. Há governadores “escorregando” em temas sensíveis e criando crises desnecessárias. No caso do clã Bolsonaro, qualquer avaliação exige cautela: trata-se de um grupo que domina a lógica do voto e da audiência digital. Ainda assim, o padrão se repete — decisões guiadas pela bolha, não pelo eleitor médio.

O resultado prático é um fenômeno conhecido no futebol: jogar no erro do adversário. A direita tem feito exatamente isso — mas contra si mesma. Foi assim no debate sobre o tarifaço de Donald Trump, na tramitação da chamada PEC da Blindagem, no PL da Dosimetria e, mais recentemente, na reação ao sequestro de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos.

Quando o radicalismo vira presente para o governo

No episódio envolvendo Maduro, setores da direita brasileira ultrapassaram um limite perigoso. Não apenas relativizaram uma ilegalidade diplomática internacional, como também flertaram com a ideia de intervenção estrangeira no Brasil, ainda que em tom de bravata ou ironia.

Mesmo para parte do eleitorado antipetista, defender — explícita ou implicitamente — a importação de um ato internacionalmente questionável é politicamente tóxico. Se alinhar a um crime diplomático já é grave; sugerir que o mesmo expediente possa ser aplicado ao Brasil é estrategicamente desastroso.

O paradoxo é evidente: em momentos nos quais o governo Lula cometia erros graves — como na condução da segurança pública ou em declarações desastrosas sobre criminalidade — a oposição optou por cometer erros ainda maiores. Em vez de explorar as fragilidades do governo, preferiu endossar discursos extremados, projetos impopulares e ações que afastam o eleitor moderado.

O eleitor decisivo não vive em guerra ideológica

Nenhuma eleição presidencial será vencida apenas com a militância mais ruidosa. O eleitor de centro, decisivo em qualquer disputa nacional, não vive em permanente estado de guerra ideológica. Esse eleitor rejeita radicalismos, teme instabilidade institucional e reage mal a qualquer sinal de submissão externa.

Para esse segmento, a ideia de um líder estrangeiro interferindo nos assuntos internos do Brasil é inaceitável — independentemente de simpatias ou rejeições a Lula. Ao ignorar esse dado elementar da realidade eleitoral, parte da direita acaba fortalecendo exatamente aquilo que diz combater.

O efeito colateral é claro: erros recorrentes da oposição funcionam como combustível para a recuperação política do governo. Quando o adversário tropeça, basta silêncio, cálculo e estratégia. Mas, diante de cada falha do Planalto, a resposta tem sido uma alopragem maior.

Não se trata de aconselhamento.
Trata-se de análise política objetiva.

E, se o padrão se mantiver, o principal beneficiado continuará sendo o presidente que a direita afirma querer derrotar.

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